A miuda mais gira do liceu
O sorriso? O sorriso era cheio, aberto, franco, lindo. A boca bem desenhada de lábios cheios na medida certa, hidratados, rosados, perfeitos. Os olhos enormes e cor de mel, tinham um brilho atraente, fantástico. Lembro-me que quase ficavam cremes, quando lhes incidia o sol e os iluminava. Tudo em ti era luz. Os cabelos longos e ondulados daquele louro escuro, enquadravam o teu rosto, do tom certo. Para mim, eras sem duvida, a miúda mais gira do liceu…
Cais-te lá, tal como eu, após uma vida de colégios particulares! Achavas-te diferente. Pensavas que eras vista de modo diferente, tinhas medo de seres apelidada, de “beta” e não querias isso, não querias mesmo nada. Querias ser popular, “porreira”, “fixe” e não percebias que na tua presença, era impossível, alguém não se render. Meninos e meninas, Ok as meninas tinham aquela coisa, de te encher de defeitos… mas na tua frente, era impossível não te achar linda. Mas, tu não vias isso e querias ser fixe.
Com a cena do fixe… deixaste-te “apanhar”. Não querias ser isto, querias ser aquilo e aqueloutro e… bem, no fundo não sabias muito bem o que TU, querias ser ou eras e acabaste por ser, o que um grupo, quis que Tu fosses, ou pelo menos sugeriu... o que tu não eras!
Encontrei-te na Igreja, num dia que lá fui, por causa do meu casamento. Estavas grávida. Tinhas cortado o cabelo, já estava muito estragado e curto ficavas com o rosto livre. Vestias umas jardineiras e continuavas linda. Sabia que já não estavas muito bem, mas acreditei que tivesse sido uma fase e que tudo ficaria bem contigo.
A última vez que te vi, era eu a grávida. Quase não te reconheci. O cabelo estragado, feio, mal tratado. Os olhos escureceram, perderam a luz, a expressão, a vida. Os lábios secos, desidratados, comidos, diminuíram-te o tamanho da boca, do sorriso. Os dentes brancos escureceram e estragaram-se com o fumo e a vida. As mãos, secas, rebentadas, unhas roídas, destratadas. Disseste-me que te mantinhas com o teu homem e que não era fácil… mas pelo miúdo. Ele bate-te, sova-te, agride-te e tu estás lá com aquele que chamas de teu homem…
Já lá vão três anos, desde que te vi. Nunca fomos amigas, acho até que nem numeros de telefone trocamos. Mas, gosto tanto de ti miúda.
O meu blog anterior: www.partilhas.blogs.sapo.pt
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