terça-feira, novembro 09, 2004

Vitima

A altura, não era a melhor. Apesar de estar de férias, estava tensa, stressada, insegura, sem qualquer ponta de paciência.
Tu, andavas igualmente stressado, tenso, talvez meio perdido, sem perceberes muito bem essa coisa de estar uma semana com uma avó, mais outra com a mãe, duas com o pai, mais outra com a avó e agora novamente a mãe.
Tentavas a todo o custo, testares a tua segurança e eu perdida na minha, não vi, não percebi. Ou melhor talvez até tenha intuído, mas não consegui racionalizar, tornar consciente o que sentia.

Vínhamos da praia e íamos almoçar com os meus padrinhos. Estava na hora do banho e até tínhamos tempo. Li-a na altura “As crianças e a disciplina” do Brazelton e tentava a todo o custo, aplicar o que por ali se lia.

Respirei fundo cinquenta vezes, mas deveria tê-lo feito 50 milhões de vezes. Não o fiz. Fazias daquelas birras de teste de limite, que me tiram do sério.

Não contive a mão e dei-te uma palmada na nádega direita. A palmada, não foi leve e mais do que uma palmada eu agredi-te. Os meus dedos ficaram marcados, no teu corpo pequeno e frágil. Os teus olhos de horror e dor choravam, enquanto chamavas; Mãe! Oh Mãe! Gelei!

Tentei explicar-te a ti a mim, que me tinha descontrolado. Que ao reagir a uma birra tua, eu tinha feito outra. Que os adultos também erram e se descontrolam, que não te queria magoar. Pedi que me desculpasses o exagero. Não chorei na tua frente e apesar de tremer, consegui ir almoçar. A minha prima, dizia para ter calma, mas eu sabia que tinha exagerado.

Depois da sesta ainda tinha os dedos marcados, na sua nádega branquinha, que contrastava, com o bronzeado das pernas e das costas. Percebi então que era caso de gelo. Enquanto lhe punha gelo e o massajava, ele ficava quieto. Surpreendentemente quieto. De cada vez que lhe colocava o gelo, explicava-lhe o que tinha sido aquilo. A birra dele e a minha e de cada vez lhe pedia desculpa, sublinhando que o Amava muito. E ele respondia com uma expressão ofendida; “Foste tu mãe, fizeste dói-dói a mim…!

No dia seguinte a avó chegou bem cedo.

Ao retirar-lhe a fralda da noite, viu o Tu-tu, marcado e perguntou o era, como resposta ele disse: “Nada!”.

- Pedi-lhe para contar à avó o que tinha sido. Ele não foi capaz. Contei à Avó na sua frente.

A vitima defendeu o agressor! No caso tinha sido eu; A sua Mãe...

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