segunda-feira, abril 04, 2005

Tradições nossas

Embora com algumas, muitas, reservas. Tenho um orgulho imenso, na minha terra, nas minhas raízes, na minha família, no que está em mim, sem se ver.

Além das imagens visuais dos meus avós maternos e paternos, recordo em especial os cheiros. O cheiro da casa, que normalmente mantinham fechada. A textura da camisa de flanela do avô, que visto hoje noutro tamanho ao Besnico, sempre que lá vamos… A temperatura dos homens da família de camisa de flanela aos quadrados, por cima de outra, só para “compor” e no meio deles o Besnico, orgulhoso da sua condição de próxima geração de homens fortes… Queira Deus, que na proporção certa.

Olho para eles, quando nos juntamos à mesa, nos domingos de Inverno, com o cozido, feito pelas nossas mães, já sem o cheiro da carne do porco, criado pelos avós, ou os chouriços, cujas carnes, éramos nós os meninos e meninas que cortávamos aos pedaços. Faltam sempre os avós. Mas, já há mais netos...

A mesa, já não é a mesma. Nem a loiça, nem os copos. A sala, varia entre duas casas de família, junta. Umas vezes, mais unida do que outras, mas ainda assim; a Família. Esse bem fantástico, que os homens criaram e que não é a Natureza, que nos dá. Somos Nós, que nos damos, ou trocamos, alimentamos ou destruímos, à nossa vontade.

As tradições alteraram-se, por mais que tentemos manter algumas. Já não há a panela de ferro sempre ao lume com “o comer do porco”, nem é já o meu pai quem o mata. Nem a minha mãe, quem segura o alguidar do sangue mexendo-o qual heroína… impossível de acompanhar por mim… Os cheiros, já não são os mesmos, os paladares também não.

O cheiro do porco chamuscado com caruma, ao nascer do sol. Com os tios (irmãos do avô) envergando as suas boinas e camisas de flanela, bebendo o seu copo de vinho (feito em casa), a “matar o bicho”, todos juntos, com um brilho nos olhos, a irradiar Amor, por tudo, pela família, pela vida.

Hoje, quando a carne, chega já desfeita, sem o cheiro da vida a pular, por ali ao lado, sem o cheiro da lenha a queimar, para se grelharem as primeiras febras, ou sem a arca, pronta para a salmora, o cheiro da carne morta é nauseabundo e assustador. E claro está, o sabor... não é o mesmo.

Ainda hoje se toma o pequeno-almoço na cidade, e matamos o bicho, lá. As tradições e os cheiros de há 30 anos, o Besnico, já não conhecerá. Pergunto-me, que cheiros e que cores levará a memória dele.

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Para vocês dois, Obrigada pela troca de mimos. Pela Partilha das nossas Arcas velhas, carregadas de emoções e Amor. Frescas, cheirosas e cheias de sabores, quentes de novas Amizades, feitas, com Alma.

Beijos 2. E mais alguns!

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