Cara de anjo
Afinal, este é o meu comentário ao post do Charquinho, postado ontem;
"Sentava-se sempre ao meu lado. De cima do seu quase 1,80mt e dos seus certos 90 Kilos, era dado a poucas conversas e nada social, usava uma barba cerradíssima, que lhe dava mais 10 anos e um ar sério. Nada a que eu desse atenção aos 19 anos.
Um dia à conversa, mostrou-nos, a mim e outra colega que esqueci o nome, uma foto sem barba. A perfeita cara de anjo.
Já não sei precisar como é que começou. Sei que o sexo, me era desconhecido e que aquele homem enorme, me invadia… Eu queria mesmo era beijinhos e ponto final, que até não eram nada maus.
Começou por não ir à minha festa de aniversário, pois não queria partilhar-me com mais 40 pessoas… e não foi!
De seguida a conversa era como é que eu seria aos 30 ou 40 anos… devo dizer, que hoje sou é muito mais gira. A preocupação era se eu seria gorda, ou magra, ou como é que me vestiria e porque é que estava zangada com o meu pai, que não dava jeito, profissional, nem monetariamente… enfim, 1 mês de namoro e o futuro já era nosso… na cabeça dele. Mas, não telefonava… esperava sempre por mim… e eu não telefonava, porque tinha uma vida social intensa e não sabia muito bem, como é que era… Aparecia à minha porta, para ralhar comigo… imagine-se… mas depois derretia-se todo.
Um dia resolveu confessar que tinha “curtido”, não me lembro se envolvia sexo, ou não, o que na altura também não era importante, com a ex-namorada. E eu não gostei… Só que à primeira oportunidade, também eu me atirei nos braços de outros beijos na boca… Bem, resolvi, que andar nos melos com um e ser “namorada” de outro, que já não via há muito tempo, tipo uma semana, o melhor era ficar por ali…
Fui a pé, apesar da distância… carro não havia e os transportes públicos, dão muitas voltas, para chegar ao mesmo sitio.
Falámos (dentro de casa) e parecia tudo bem.
De repente, no meio daquela Rua, pouco iluminada que eu descia, aparece o metro e oitenta e mais alguns centímetros, já não me lembro, o que é que ele disse. Só me lembro que levei um bom par de estalos e que no passo seguinte a minha cabeça bem agarrada estava encostada a um muro… e que ele não me partiu toda, nem esmurrou, porque eu só quis mesmo foi acalmá-lo… Não gritei, por vergonha! Por receio, por a escandaleira, havia varandas a 10 metros de mim, não se acabaria por o fazer… Nos tempos seguintes, desde de se abalar a esmurrar a porta da minha casa, a telefonemas e telefonemas, primeiro de ameaça e depois de arrependimento… não sei quanto tempo durou, sem que foram ficando mais espaçados e que seis anos depois a 2 meses do meu casamento, ele ligou e eu finalmente falei…
O arrependimento consistia em defender que só me tinha batido, porque nunca tinha gostado de ninguém assim…
Nunca mais o vi, raramente falo deste assunto, que a maioria de quem me conhece, desconhece, mas se mais alguma vez nos cruzarmos, eu vou morrer de medo. Ainda hoje sinto o medo, passaram quase 20 anos e ainda hoje sinto o medo… E penso que se ele me tivesse batido por ódio, provavelmente eu hoje não estaria a escrever este texto, ou pelo menos, sem marcas exteriores visíveis.
P.S. Neste momento, tenho até medo, que ele me reconheça aqui... Afinal, nunca se sabe quem por aqui passa, ainda assim!"
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