quinta-feira, março 03, 2005

Temperaturas

Posted by Hello



Saltei para dentro desta panela funda, com água a menos de meio... porque me convenci, que lá dentro estava um tesouro, lindo e por descobrir, ali naquele lugar, que ninguém pensaria ser possível.

Dentro daquele caixote, igual a todos os outros eu senti as vibrações das pedras preciosas, intui e adivinhei que com elas, também eu me transformaria, numa pedra (ainda mais) rara e resolvi espreitar.

A água que estava na panela, não se via do lado de fora. E só lá dentro percebi, que me dava pela cintura. Seria a quantidade certa, para eu nadar, sem afundar, mas em corrente forte, derrubar-me-ia, numa penada e sem qualquer dificuldade.
Mas, eu lá sou mulher de se derrubar? Claro que não. Não existe corrente que me derrube.

Eis que a água começa a aquecer, a aquecer e eu qual peixe tropical, cedo sem perceber. Nem dou por ela. Estou é à espera das correntes, não de temperaturas altas. A água aquece a uma temperatura fantástica e eu gosto.

Mas o tesouro - aquilo que fui encontrar - desapareceu. Não sei se foi imaginação minha, se ilusão de óptica ou simplesmente uma desculpa, para saltar para a panela. Sei é que lá dentro só existe água, sem tesouro nenhum e eu mesmo sem tesouro, não saio de lá.

Com o tempo a água arrefeceu, as paredes da panela também e eu começo a tentar subir, para fugir dali. Mas, como sou teimosa e pouco inteligente, de vez em quando, olho para trás... à procura da confirmação, que o tesouro está lá... disfarçadamente, sem dar bandeira nenhuma e sem ninguém dar por ela...queria tanto ser uma pedra (ainda mais) rara… mas, quando estou no processo de me escapar... acendem o lume a esta panela e com a água quente, lá vejo eu o tesouro e sinto-me bem naquela água choca, que me engana a temperatura da alma, me adoça o espirito e me reconforta, não sei exactamente o quê… e lá fico eu, presa naquela panela, de água choca, com um tesouro, fruto da minha imaginação, à espera de nada… Mas, sem conseguir resistir aquela temperatura da tua voz. Ao timbre das palavras, que atiras sem sentido, apenas para me manteres presa naquela panela, que de vez em quando aqueces, para me manteres perto, como se eu fosse um troféu. A grande conquista da tua vida. Como se os tesouros, fossem para se guardar em panelas...

Mas, não te esqueças que eu sou teimosa. E mesmo, sem resistir à tua temperatura, aqueço coagida, contrariada e sem vontade total. Aqueço com raiva de mim, com zanga da minha fraqueza, contragosto.

Mas, aqueço e como aqueço.

Um dia… quando estiveres distraído faço um buraco e fujo pelo fundo da panela… quando lhe acenderes o lume, ela – então sem água – vai aquecer sozinha e podes queimar-te… De tanto me quereres, manter choca e sem graça…

Sem comentários: